Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010




Possuindo uma vasta área de distribuição, a Lontra é um dos mais belos, interessantes e ameaçados mamíferos da fauna Europeia. A população Portuguesa desta espécie é, ainda, uma das mais saudáveis do continente.

IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS
A Lontra Lutra lutra é um carnívoro pertencente à família Mustelidae e à subfamília Lutrinae. No geral, apresenta as características típicas dos mustelídeos, com algumas particularidades resultantes do seu modo de vida semi-aquático. Assim, o corpo é fusiforme, com membros curtos e uma cauda longa (de comprimento superior a mais de metade do tamanho do corpo). O pescoço, embora largo, é reduzido, a cabeça é achatada e larga e tem umas orelhas pequenas. Os olhos são pequenos e encontram-se deslocados para a parte superior da cabeça. A pelagem é castanha-escura sendo progressivamente mais clara ao atingir a região ventral.
Como principais adaptações à vida aquática, a lontra apresenta fossas nasais valvulares que se fecham quando submerge, o mesmo acontecendo com as orelhas. O cristalino sofre uma distorção que permite uma visão perfeita debaixo de água. Para ajudar à captura das presas, o focinho possui vibrissas sensitivas. As patas são palmadas, as garras são pequenas e não rectrácteis, estando os cinco dedos unidos por uma membrana interdigital. As lontras têm o mesmo peso molhadas ou secas. Tal facto deve-se à eficaz protecção das duas camadas de pêlos. A primeira, interna, é impermeável e densa, com pêlos de 10 a 15 mm que retêm bolhas de ar funcionando como isolamento térmico. A segunda, externa, tem pêlos que podem alcançar os 25 mm sendo também impermeável. A cauda, muito musculada, é achatada dorsoventralmente na região intermédia e afunilada na extremidade. É útil na deslocação dentro de água funcionando como leme.

DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA
Encontra-se desde a costa ocidental da Irlanda e de Portugal até ao Japão, e desde as zonas árcticas da Finlândia até à Indonésia e às zonas sub-saharianas da África do Norte. No entanto, Portugal é quase um caso isolado na distribuição e abundância da Lontra pois apresenta uma população regularmente distribuida pelo território e numa situação de relativa abundância, sendo das poucas populações viáveis. Principalmente nos países industrializados da Europa Ocidental, tem-se verificado um decréscimo acentuado das populações de Lontra. A espécie chegou a estar extinta em países como a Holanda, Suiça, Luxemburgo e, ao que consta, na Bélgica. Embora as informações sejam mais escassas, sabe-se que tem havido um forte declínio na Escandinávia e na Europa de Leste.

ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO
Está inserida na Lista dos Mamíferos Raros e Ameaçados do Conselho da Europa, no Anexo II da Convenção de Berna e no Anexo I da Convenção de CITES. A UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza) e o Livro Vermelho dos Vertebrados de Espanha (ICONA) consideram-na uma espécie Vulnerável. Em Portugal, o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal atribui-lhe o estatuto de Insuficientemente Conhecida.

Os principais factores de ameaça à espécie são: a deterioração dos habitats aquáticos e do meio circundante; a caça ilegal; a perturbação pelo homem; a mortalidade acidental, como afogamentos em redes de pesca e atropelamentos.

HABITAT
É uma espécie intimamente associada às zonas húmidas. Todos os locais com água permanente e não muito poluída e que estejam relativamente livres de perturbação humana, são capazes de albergar lontras. Assim, a Lontra existe nas águas continentais (rios, ribeiras, lagoas, albufeiras, paúis, etc), em águas salobras (estuários) e no litoral marinho. São ainda referidos como determinantes para a espécie a presença de um coberto vegetal que forneça abrigo e a disponibilidade de alimento.

ALIMENTAÇÃO
É uma espécie essencialmente piscívora. Fazem ainda parte da sua dieta artrópodes, répteis, micromamíferos e aves. A diversidade de presas consumidas aumenta no Outono e no Inverno. Revela também o seu carácter oportunista ao consumir espécies exóticas (alguns peixes e lagostins).

REPRODUÇÃO
As fêmeas são poliéstricas, podendo ter crias ao longo de todo o ano. Tal como em outros mustelídeos como o Texugo, a Marta ou a Fuínha, também a Lontra pode ter uma implantação diferida. Este processo implica que os óvulos da fêmea ao serem fecundados implantam-se na parede do útero mas não se desenvolvem senão meses mais tarde. Os nascimentos ocorrem assim na época do ano mais favorável (e.g. a Primavera). O período de gestação é de aproximadamente 63 dias nascendo então entre 1-5 crias (usualmente 2-3). As crias permanecem na toca 8-10 semanas, seguindo-se os primeiros passos no mundo exterior. Junto da mãe ficam cerca de 13-14 meses começando depois uma vida independente.

ORGANIZAÇÃO SOCIAL
A organização social não é rígida estando dependente de factores demográficos e ambientais. Os machos adultos defendem um território podendo haver sobreposições com os de outros machos. Os territórios estão relacionados com a reprodução e os dos machos dominantes incluem geralmente os territórios de uma ou mais fêmeas. Os destas são áreas de alimentação (que aumentam na época da reprodução) não sobrepostas às das outras fêmeas. O comportamento territorial parece estar baseado num sistema de marcação olfactiva. Por vezes existe uma territorialidade temporal quando há um grande aumento de densidade. Neste caso, indivíduos diferentes utilizam o mesmo espaço mas separados no tempo.
As áreas vitais variam com o sexo, idade, estatuto social, capacidade individual e idade das crias. Podem variar entre 1 Km de margem e 29 Km em áreas menos produtivas.

CURIOSIDADES
Geralmente associa-se uma maior actividade psíquica a um maior desenvolvimento da actividade lúdica. A lontra é um dos animais mais brincalhões. Os seus jogos, que podem ter lugar dentro ou fora da água, chegam a incluir o uso de objectos (como frutos, paus ou pedras) ou o escorregar na neve ou em encostas enlameadas.

LOCAIS FAVORÁVEIS DE OBSERVAÇÃO
Como é um animal de hábitos predominantemente nocturnos torna-se difícil a sua observação na Natureza. Mais fáceis de detectar, e podendo servir de orientação para a sua observação, são os indícios de presença da lontra. As pegadas são características apresentando 5 dedos e respectivas garras, e uma almofada com 3 ou 4 lóbulos, mas que nas pegadas mais profundas aparenta uma depressão única. Os dejectos são também característicos, desfazem-se com muita facilidade devido à presença de escamas e são alaranjados quando os lagostins fazem parte da dieta.
BIBLIOGRAFIA

Beja, P. (1995). Patterns of availability and use of resources by otter (Lutra lutra Linnaeus 1758) in Southwest Portugal. Tese para obtenção do grau de Douctor. Universidade de Aberdeen. Aberdeen. 171 pp.

Lopes, M. (1999). Utilização do Rio Guadiana e dos seus afluentes pela lontra (Lutra lutra Linnaeus 1758) na área do Parque Natural do Vale do Guadiana. Relatório de estágio para obtenção de licenciatura em Biologia Aplicada aos Recursos Animais, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. 49 pp.

Macdonald, D. & Barret, P. (1993). Mammals of Britain and Europe. Harper Collins Publishers, London.

Matos, H. (1999). Aspectos da ecologia da lontra Lutra lutra em ribeiras intermitentes num sector da bacia do Rio Sado (SO Portugal). Relatório de estágio para obtenção de licenciatura em Biologia Aplicada aos Recursos Animais, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. 40 pp. 

Sexta-feira, 1 de Outubro de 2010

Alfaiate (Recurvirostra avosetta)

 
 
 
 

Com uma plumagem branca e preta, longas patas, bico comprido e fortemente encurvado, o Alfaiate tem um aspecto inconfundível. A sua principal actividade consiste em “ceifar” meticulosamente as águas pouco profundas em busca de alimento.

IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS
O Alfaiate (Recurvirostra avosetta) pertence à ordem dos Charadriiformes e à família Recurvirostridae. Com a plumagem branca e preta, as longas patas cinzento-azuladas e o bico comprido e fortemente encurvado, o Alfaiate tem um aspecto extremamente característico, tornando-se numa espécie inconfundível no Paleárctico Ocidental. A plumagem de ambos os sexos é semelhante durante o Verão e o Inverno; apenas a plumagem dos jovens até ao primeiro Inverno tem uma coloração mais acastanhada. As fêmeas têm, geralmente, uma zona mais pálida em redor da base do bico e um anel pouco marcado em torno dos olhos.
O voo é ligeiro, com o pescoço encolhido e as patas esticadas para trás. Os Alfaiates nadam frequentemente e são muito ágeis; podem mergulhar, funcionando as asas como auxiliares da natação debaixo de água.

DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA
Embora a distribuição do Alfaiate englobe toda a região do Paleárctico, a maioria da população reprodutora está concentrada na Europa. A reprodução ocorre, localmente, na região do Báltico, ao longo da Costa Atlântica, desde a Dinamarca até à França Ocidental, no Mediterrâneo e desde a Europa Central até ao Cáspio. As aves pertencentes à população europeia ocidental invernam na Costa Atlântica (França, Península Ibérica, Senegal e Guiné) e as populações da Europa Central e de Leste movimentam-se para o Mediterrâneo (Grécia, Tunísia e Egipto). Algumas populações nidificantes no Sul da Europa são residentes ou efectuam movimentos de pequena extensão.
A população europeia está estimada entre 31.000 a 56.000 casais, dos quais mais de metade estão concentrados na Holanda, Dinamarca, Espanha e Turquia.
Em Portugal, o número de casais reprodutores é muito reduzido. Esta espécie é, no entanto, muito comum no Inverno, estação na qual se atinge cerca de 14.600 indivíduos, correspondendo a aproximadamente 22% da população invernante no Atlântico Ocidental.

ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO
Durante o Inverno esta espécie concentra a quase totalidade da população europeia em poucos locais. Sabe-se que durante esta época em apenas 10 áreas se encontra reunida mais de 90% da população, tornando assim o Alfaiate numa espécie vulnerável. No nosso país tem estatuto vulnerável, estando incluído no Anexo II da Convenção de Berna, Anexo II da Convenção de Bona e Anexo I da Directiva Aves.

FACTORES DE AMEAÇA
A tendência populacional desta espécie varia latitudinalmente. Assim, embora se tenha verificado um declínio das populações reprodutoras do Sul e Sudeste europeu, as populações reprodutoras dos países do Mar do Norte têm vindo a aumentar.
As principais causas de ameaça são a perda e distúrbio dos habitats de nidificação e a deterioração das condições alimentares nos locais de reprodução e invernada. Os incrementos verificados nas populações do Nordeste europeu estão possivelmente relacionados com a melhor protecção exercida, a maior extensão livre de habitats apropriados à nidificação da espécie e a melhoria das condições alimentares. Outras preocupações dizem respeito à poluição e contaminação nas áreas de alimentação e à caça.

HABITATS
Os Alfaiates estão grandemente associados a habitats aquáticos: estuários, salinas, zonas de vasa entre marés, baías pouco profundas, lagoas costeiras, albufeiras de regiões interiores. Os habitats preferenciais destacam-se, sobretudo, por serem ricos em invertebrados aquáticos. Na época reprodutora evitam áreas com vegetação densa para fazer os ninhos, embora alguma vegetação esparsa seja benéfica na cobertura e protecção de juvenis.

ALIMENTAÇÃO
O bico dos Alfaiates é estreito e curvado para cima, tornando estas aves autênticas especialistas na procura de alimento. Alimentam-se quase exclusivamente de invertebrados, insectos e crustáceos, mas também de peixes de pequena dimensão. As presas são localizadas pelo tacto durante movimentos repetidos e regulares de “ceifar”, balançando o bico entreaberto, para a esquerda e para a direita, debaixo de água. Em áreas de águas límpidas podem também localizar presas visualmente.

REPRODUÇÃO
O Alfaiate cria em colónias dispersas, frequentemente associado a espécies como as Gaivotas, Andorinhas-do-mar, Ostraceiros, Perna-longa, etc. O ninho consiste, geralmente, numa depressão exposta no chão ou em vegetação rasteira, mas sempre perto de água. Podem também utilizar pequenos ramos, raízes e folhas para acamar o ninho.
As posturas iniciam-se em meados do mês de Abril, existindo uma variação pouco nítida entre os casais de uma mesma colónia. Os Alfaiates fazem uma única postura, geralmente de 3 a 4 ovos (2-5), de forma oval, lisos, de cor castanho pálido pintalgado a preto. O período de incubação prolonga-se por 23 a 25 dias (20-28) e ambos os sexos incubam. Depois das crias nascerem são necessários 35 a 42 dias para que estas se tornem voadoras. Desde muito pequenas são, no entanto, exímias nadadoras.

MOVIMENTOS
Os indivíduos que se reproduzem no limite Norte da área de distribuição da espécie são tipicamente migradores. Em anos com Invernos amenos, grandes números de Alfaiates ficam nos países do Mar do Norte. Os Alfaiates invernam localmente em Inglaterra e Holanda e mais tipicamente desde a bacia do Mediterrâneo até ao Sul do mar Cáspio e a sul do Sahel africano, Arábia e Índia. A dispersão das áreas de reprodução inicia-se na segunda metade do mês de Julho e em Agosto – Setembro concentram-se em áreas determinadas para realizar a muda. A passagem de Primavera começa cedo, com a partida das aves das áreas de invernada desde fim de Fevereiro e princípios de Março. O retorno às áreas de reprodução depende das condições meteorológicas: na Europa Ocidental, as primeiras aves podem surgir no início ou meados de Março, sendo que a grande maioria chega durante o mês de Abril.

CURIOSIDADES
As recapturas de aves anilhadas mostram que os Alfaiates invernantes nos estuários portugueses são provenientes da população nidificante no Norte da Europa, particularmente na região do Mar de Wadden holandês, alemão e dinamarquês.

LOCAIS FAVORÁVEIS DE OBSERVAÇÃO
Os Alfaiates vêm a Portugal passar o Inverno, em grandes bandos barulhentos e inquietos, que se estabelecem sempre junto da água, onde nadam livremente. Os melhores locais de observação desta espécie durante o Inverno são os Estuários do Tejo e do Sado e a Ria Formosa, onde existem as maiores concentrações do país. A sua conspicuidade torna-os facilmente avistáveis.

Durante a época reprodutora, a Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António constituirá o local mais seguro para a observação desta espécie, uma vez que constitui o único local onde se regista, com regularidade e num número razoável, a nidificação do Alfaiate. No entanto, também os Estuários do Tejo e do Sado albergam, ocasionalmente, casais reprodutores.

BIBLIOGRAFIA

Elias, G. L., Reino, L. M., Silva, T., Tomé, R. e P. Geraldes (Coods.) (1998). Atlas das Aves Invernantes do Baixo Alentejo. Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Lisboa.

Snow, D.M: e C.M. Perrins (Eds.) (1998). The birds of the Western Palearctic. Concise Edition; vol. 1 Non passerines. Oxford University Press.

Tucker, G.M. e M.F. Heath (1994). Birds in Europe: Their Conservation Status. Birdlife Conservation Series nº 3. 


Tecelão-de-cabeça-preta (Ploceus melanocephalus)


Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010

Andorinha-do-mar-comum (Sterna hirundo)







A Andorinha-do-mar-comum é uma espécie de ocorrência regular em Portugal. Nidifica em colónias, onde defende o seu ninho com gritos e ataques súbitos e velozes, voando a pique sobre o predador, podendo mesmo atacá-lo com fortes bicadas.


IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS
A Andorinha-do-mar-comum (Sterna hirundo) pertence à ordem dos Charadriiformes. Tem de comprimento entre 31 e 35 cm e 77 a 98 cm de envergadura, sendo assim nitidamente mais pequena que o Garajau-comum (Sterna sandvicensis) e maior que a Andorinha-do-mar-anã (Sterna albifrons). Tem o bico proporcionalmente curto e a cauda comprida, marcadamente bifurcada. Em plumagem nupcial apresenta cabeça preta, bico vermelho com a extremidade preta, dorso cinzento claro com as primárias exteriores mais claras que as anteriores, peito e barriga brancos, cauda e uropígio também brancos e patas vermelhas. Em plumagem de Inverno a fronte é branca e o bico preto. Não existe dimorfismo sexual na plumagem. Os juvenis e os imaturos em plumagem de primeiro Inverno são semelhantes aos adultos, embora as primárias exteriores, as pequenas coberturas e a margem das secundárias sejam mais escuras. As rectrizes exteriores são também mais escuras e mais curtas. O voo é leve e rápido.

DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA
Esta espécie apresenta uma distribuição global, estando presente em todos os continentes. Na Europa nidifica nas costas atlânticas, mas também no interior, na Europa Central e de Leste. Reproduz-se ainda na Ásia (até ao Árctico), na América do Norte, África Ocidental e Médio Oriente. A população mundial está estimada entre 250 000 e 500 000 casais.

Em Portugal nidifica irregularmente no Continente, mas é regular nos arquipélagos dos Açores (4000 casais) e da Madeira (100 casais). É abundante na costa atlântica na época de migração, ocorrendo também, em menor número, no Inverno.

ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO
Em Portugal, a Andorinha-do-mar-comum tem o estatuto de não ameaçada (NT) no Continente e na Madeira e de insuficientemente conhecido (K) no arquipélago dos Açores. Está ainda incluída na Convenção de Berna (Anexo II) e na Directiva Aves (Anexo I).

FACTORES DE AMEAÇA
A perda de habitat, a perturbação humana, a predação de ovos e crias e a competição inter-específica nos locais de nidificação contam-se entre os principais factores de ameaça responsáveis pelo declínio das populações por todo o mundo.

HABITAT
A Andorinha-do-mar-comum nidifica tanto em zonas costeiras (ilhas, praias e penínsulas arenosas), como em zonas interiores (zonas de aluvião dos rios e pequenas ilhas sem vegetação).

ALIMENTAÇÃO
Mergulha a pequenas profundidades, em águas límpidas, para capturar as suas presas. Alimenta-se de peixes e de invertebrados, nomeadamente crustáceos e insectos, geralmente perto da colónia, embora alguns indivíduos possam afastar-se até 40 km. É um predador oportunista, alterando rapidamente o seu regime alimentar se as condições ambientais o exigirem.

REPRODUÇÃO
É uma espécie colonial. A formação dos casais é precedida pela parada nupcial, rica em movimentos, em que o macho oferece peixe à fêmea que corteja. Antes da cópula, o casal corre lado a lado até que a fêmea se agacha em posição convidativa e o macho sobe para o seu dorso batendo as asas. O ninho consiste apenas numa depressão escavada, no meio de pedras ou na areia, onde são colocados entre 1 a 3 ovos. A época de postura e incubação inicia-se em Maio, sendo necessárias cerca de três semanas para incubar os ovos. As crias são nidífugas, atingindo a emancipação com cerca de um mês de idade. Apenas é efectuada uma segunda postura quando a primeira é perdida.

MOVIMENTOS
A Andorinha-do-mar-comum é uma espécie migradora. Grande parte da população europeia inverna na África Ocidental e do Sul; uma minoria parece invernar em Portugal e Espanha. As aves europeias apresentam uma diferenciação nas áreas de invernada, de acordo com o país de origem: as populações de países do Ocidente e Sul tendem a invernar a norte do Equador, enquanto as do Norte e Leste privilegiam as áreas africanas a sul do Equador.

A migração pré-nupcial ocorre entre Março e Maio e a pós-nupcial inicia-se em Julho, com a dispersão dos primeiros juvenis, e prolonga-se até Outubro.

CURIOSIDADES
Um indivíduo anilhado num ninho na Suécia foi recapturado na Austrália, muito longe da sua área de invernada.

LOCAIS FAVORÁVEIS DE OBSERVAÇÃO
Em Portugal Continental esta espécie nidifica irregularmente, sendo mais comum observá-la na costa durante a migração e o Inverno. A Lagoa de Santo André, durante a migração pré-nupcial, e Tróia constituem dois locais privilegiados de observação. Os arquipélagos, principalmente dos Açores, mas também da Madeira, constituem áreas de nidificação desta espécie e, como tal, locais propícios à sua observação.
BIBLIOGRAFIA

Elias, G. e D. Leitão (1992). A nidificação da Andorinha-do-mar-comum Sterna hirundo em Portugal Continental. Airo 3 (3).

Leitão, D., R. Neves e R. Rufino (1993). Censos de Andorinhas-do-mar (género Sterna) nidificantes nos estuários do Tejo e Sado em 1993. Airo 4 (2): 68-71.

Lloyd, C., M.L. Tasker e K. Partridge (1981). The status of seabirds in Britain and Ireland. T and A.D. Poyser. London.

Snow, D.M. e C.M. Perrins (Eds.) (1998). The birds of the Western Palearctic. Concise Edition; vol. 1 Non passerines. Oxford University Press.

Tucker, G.M. e M.F. Heath (1994). Birds in Europe: Their Conservation Status. Birdlife Conservation Series nº 3.

Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

Gaivota-de-asa-escura (Larus fuscus)




A Gaivota-de-asa-escura é muito abundante no nosso País durante o Inverno, quando as populações do Norte da Europa migram para Sul. Neste período pode ser mesmo considerada a ave marinha mais comum e de repartição mais ampla na nossa costa.



IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS
Ligeiramente mais pequena que a Gaivota-de-patas-amarelas (Larus cachinnans), a Gaivota-de-asa-escura (Larus fuscus) distingue-se desta pela cor mais escura das partes superiores e pela cabeça mais arredondada. Na Europa existem três subespécies - L .f. graellsii, L f. fuscus e L .f. intermedius.
No nosso país, a subespécie mais comum é a L. f. graellsii, que em plumagem nupcial apresenta a cabeça e as partes inferiores brancas e o manto e dorso cinzento-escuro. As asas são igualmente cinzento-escuro, à excepção das primárias, de cor preta e com pequenas manchas brancas na extremidade. O bico é amarelo com a extremidade da mandíbula inferior de cor vermelha. Os olhos são amarelos e o anel orbital é vermelho. Em plumagem de Inverno apresenta estrias bem marcadas de cor acastanhada ao longo da cabeça, pescoço e peito.
Os juvenis e imaturos em plumagem de 1º Inverno são muito diferentes dos adultos. As coberturas são de cor escura orladas a claro e as primárias exteriores, secundárias e rectrizes são pretas-acastanhadas, com as primárias interiores mais claras. As partes inferiores são claras. Os juvenis de Gaivota-de-asa-escura são semelhantes aos de Gaivota-de-patas-amarelas, embora mais escuros. Até atingirem a plumagem de adulto, o padrão é semelhante mas vão tornando-se mais escuros com as partes inferiores mais brancas.
DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA
As áreas de reprodução desta espécie abrangem as latitudes médias e altas do Paleárctico Ocidental até Portugal continental, o limite Sul da sua actual área de criação. L. f. graellsii nidifica na Grã-Bretanha, Islândia, França, Espanha e Portugal; L. f. intermedius no Sul da Noruega, Dinamarca e Holanda; L. f. fuscus nidifica desde o Norte da Escandinávia até à Península de Kola (parte ocidental da ex-URSS). A população mundial destas três subespécies é aproximadamente de 205.000 casais e cerca de um terço reproduz-se em Inglaterra e na Irlanda. Tal como a Gaivota-de-patas-amarelas, com uma maior população e maior área de distribuição, a Gaivota-de-asa-escura tem vindo a aumentar em número e a expandir a sua área de distribuição desde o século passado. As populações que nidificam entre a Islândia, Escandinávia e França, migram para Sul para passar o Inverno em Portugal, Sudoeste de Espanha e Noroeste Africano, com algumas aves que migram até à Mauritânia, Senegal e Golfo da Guiné. As populações que nidificam na área Este da distribuição da espécie atingem o Mediterrâneo e o Mar Negro, o Mar Vermelho, o Golfo da Arábia, as costas Norte e Este do Índico e as áreas mais interiores no Leste de África.

Em Portugal, a Gaivota-de-asa-escura é, essencialmente uma espécie invernante, embora também surja como migrador de passagem e até como reprodutor. A primeira confirmação da nidificação desta espécie ocorreu na Ilha da Berlenga e data de 1978. O efectivo reprodutor nacional está estimado entre os 30 e os 50 casais distribuído por três núcleos: Ilha da Berlenga, Ilha do Pessegueiro e Ria Formosa. A ordem de grandeza do efectivo invernante no nosso país não é clara. O Estuário do Tejo constitui um dos principais núcleos de invernada da espécie podendo albergar mais de 30.000 indivíduos. É pouco comum nos Açores, Madeira e Selvagens.

ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO
A Gaivota-de-asa-escura é uma espécie não ameaçada (NT) no nosso país.
FACTORES DE AMEAÇA
No último século, esta espécie tem conhecido um aumento significativo, quer no efectivo populacional, quer no que respeita à sua área de distribuição. O aumento verificado é, em parte, desconhecido, embora esta espécie poderá ter vindo a beneficiar, tal como a Gaivota-de-patas-amarelas, do incremento de fontes alimentares relacionadas com a indústria pesqueira e o aumento do número de lixeiras. Tal como foi referido no tópico anterior, esta espécie não está ameaçada e apenas o desaparecimento de fontes alimentares poderá conduzir ao decréscimo do seu efectivo.

HABITAT
Encontra-se maioritariamente associada a extensões de água salobra, embora possa ser encontrada a muitos quilómetros da costa. Estuários, orla costeira, pisciculturas, salinas, lagoas costeiras, cursos de água, barragens, açudes, estações de tratamento de águas residuais, terrenos alagados, lixeiras e zonas urbanas.
ALIMENTAÇÃO
É uma espécie omnívora. A dieta é semelhante à da Gaivota-de-patas-amarelas. Inclui peixe, crustáceos, invertebrados aquáticos, crias e ovos de aves, material vegetal, roedores e desperdícios.
Alimenta-se com frequência em lixeiras, terrenos lavrados e arrozais. O alimento é obtido caminhando no solo, em água pouco profunda ou em zonas vasosas. Pode também capturar pequenas presas à superfície da água enquanto nada ou voando rente à água ou mesmo mergulhando. As gaivotas desta espécie recorrem muitas vezes ao cleptoparasitismo, roubando o alimento obtido por indivíduos da mesma espécie ou de outras espécies.

REPRODUÇÃO
É uma espécie colonial, embora possa também encontrada isoladamente ou em colónias de outras espécies de gaivota, como a Gaivota-argêntia (Larus argentatus) ou a Gaivota-de-patas-amarelas. Dentro da colónia são, no entanto, territoriais. As aves que se reproduzem mais a Sul começam a ocupar os seus territórios em finais de Fevereiro, embora a maioria o faça em Março. As colónias encontram-se junto à costa ou em ilhas, em dunas, terrenos planos com pouca vegetação, margens de lagos, zonas pantanosas e falésias rochosas. O ninho é instalado no chão e construído com algas, ervas ou outro tipo de material. Fazem uma única postura, de 3 ovos, entre finais de Abril e Maio, e os ovos eclodem após 24 a 27 dias. A emancipação das crias ocorre cerca de 30 a 40 dias após a eclosão.
MOVIMENTOS
É essencialmente migratória, embora nos últimos anos se tenham detectado aves residentes entre indivíduos de 2º Inverno e aves mais velhas. A área total de invernada estende-se desde a Grã-Bretanha, Mediterrâneo, Mar Cáspio e Negro e Golfo Pérsico, até ao Mar Arábico e África Ocidental e de Leste. L. f. graellsii inicia a migração pós-nupcial em Agosto, com grande parte das aves observadas neste mês e em Setembro a realizaram a migração rumo aos locais de invernada mais a Sul, ao longo da costa Ocidental africana.

CURIOSIDADES
Na ilha da Berlenga, onde criam alguns casais de Gaivota-de-asa-escura, foram já encontrados casais mistos desta espécie com Gaivota-de-patas-amarelas.

LOCAIS FAVORÁVEIS À OBSERVAÇÃO
Em Portugal, a Gaivota-de-asa-escura é essencialmente uma espécie invernante, facilmente observável ao longo de costa litoral, em estuários, praias, portos piscatórios e lixeiras. Menos comum que no litoral, pode ser observada, no interior, junto a barragens e açudes de grandes dimensões. Durante a Primavera e o Verão é mais rara, e a grande maioria das observações dizem respeito a indivíduos imaturos. Pode ainda ser observada nos locais de nidificação, embora em pequeno número: Ilha da Berlenga, Ilha de Porto Côvo e Ria Formosa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Elias, G. L., Reino, L. M., Silva, T., Tomé, R. e P. Geraldes (Coods.) (1998). Atlas das Aves Invernantes do Baixo Alentejo. Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Lisboa.

Farinha, J. C. e H. Costa (1999). Guia de Campo das Aves aquáticas de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa.

Lloyd, C., Tasker M. L. e K. Partridge (1981). The status of seabirds in Britain and Ireland. T and A.D. Poyser. London.

Projecto, J. e M. Lecoq (1998). Aves da Costa Alentejana. Direcção Regional do Ambiente-Alentejo.

Sauer, F. (1983). Aves Aquáticas. Editorial Publica.

Snow, D. M. e C. M. Perrins (Eds.) (1998). The birds of the Western Palearctic. Concise
Edition; vol. 1 Non passerines. Oxford University Press.

Rola-do-mar (Arenaria interpres)




A Rola-do-mar é um visitante de Inverno do nosso país, que ocorre ao longo de toda a costa. Facilmente identificável pela sua plumagem peculiar, esta pequena limícola percorre longas distâncias entre as áreas de reprodução e de invernada.

IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS
A Rola-do-mar (Arenaria interpres) pertence à ordem dos Charadriiformes, família Scolopacidae e subfamília Arenariinae.
É uma limícola de pequenas dimensões (21-24 cm de comprimento e 44-49 cms de envergadura), robusta, com patas e bico curtos. A sua plumagem característica torna-a numa espécie de fácil identificação. Em quase todas as plumagens o bico é preto e as patas são alaranjadas. A plumagem nupcial é muito colorida; possuem marcas pretas na cabeça e uma banda preta no peito contrastando com a cor branca da parte inferior do corpo. No dorso e asas apresenta um padrão muito marcado e contrastante; o manto, as escapulares e as terciárias são preto-acastanhadas, com penas orladas a cor ferrugem e as pequenas e médias coberturas são cor de ferrugem. Nesta plumagem os machos distinguem-se pelo seu padrão mais vivo e menos acastanhado. De Inverno, a plumagem torna-se castanha-acinzentada com orlas brancas nas penas. Também as marcas faciais se tornam mais difusas.
Os juvenis são semelhantes aos adultos em plumagem de Inverno, com as penas do dorso orladas a castanho claro e as patas amareladas.
Em vôo apresentam um padrão único com dois painéis brancos nas asas e uma barra preta terminal na cauda.

DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA
A Rola-do-mar possui uma distribuição Holártica, nidificando numa vasta área que compreende a maioria do Ártico e se estende desde a Ilha de Ellesmere e Oeste da Gronelândia até à Escandinávia e à Península de Chuckchi. É uma espécie essencialmente migradora, que inverna na orla costeira de todos os continentes.

A população reprodutora na Europa está estimada em 16.000 a 37.000 casais.
Em Portugal, esta espécie é um visitante não reprodutor razoavelmente comum, ocorrendo tanto no Inverno como durante a passagem migratória, embora já tenha sido detectada em todos os meses do ano.

ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO
No nosso país a Rola-do-mar tem estatuto de espécie não ameaçada. Está presente nas Convenções de Bona II e Berna III.

FACTORES DE AMEAÇA
A Rola-do-mar é uma espécie não ameaçada. A destruição dos habitats quer de nidificação quer de invernada poderão constituir os principais factores de risco à sua sobrevivência.

HABITAT
Fora da época de reprodução prefere plataformas rochosas onde existam algas a cobrir as rochas. Encontra-se também em zonas com sedimentos arenosos, estuários, lagoas costeiras e pontões. Durante a época reprodutora concentra-se junto das orlas costeiras e algumas ilhas, podendo no entanto nidificar em zonas interiores, a vários quilómetros da costa e a mais de 100m de altitude. Suportam bem as tempestades mas também estão aclimatadas a áreas quentes e áridas.

ALIMENTAÇÃO
Durante o período reprodutor alimenta-se essencialmente de insectos, embora o material vegetal e as aranhas possam ter um papel importante na sua dieta, quando os insectos ainda escasseiam. Nos restantes períodos alimenta-se maioritariamente de invertebrados, em particular de crustáceos e moluscos. O método usado na procura e captura de alimento varia com o habitat, época e disponibilidade de alimento. Vira pedras, algas e outros objectos para capturar presas escondidas. Em algumas ocasiões, vários indivíduos podem trabalhar em conjunto para remover um objecto de grandes dimensões. Alimentam-se também de ovos de outras aves aquáticas.

REPRODUÇÃO
O ninho é construído no chão rodeado de vegetação rasteira; durante a fase nupcial o macho esgravata várias depressões e a fêmea determina o local definitivo para nidificar, local esse frequentemente conservado durante anos. Também fazem as posturas em fissuras de rochas que tenham plantas. O interior do ninho é forrado com folhas e ervas.
As posturas efectuam-se em meados de Junho e compreendem 3 a 4 ovos. A incubação dura 22 a 24 dias. As crias são nidífugas, isto é, abandonam o ninho quando nascem e 19 a 21 dias depois tornam-se independentes e já voam.

MOVIMENTOS
Espécie migradora. Na Europa estão presentes duas populações: a da Escandinávia e Rússia, e a da Gronelândia e Canadá. A primeira é essencialmente migradora de passagem e inverna na costa ocidental africana, enquanto que a segunda passa o Inverno no Oeste europeu. As populações presentes na Península Ibérica durante o Inverno são maioritariamente provenientes das populações nidificantes na tundra siberiana, desde o Mar Branco até à Sibéria Central e das Ilhas de Axel Heiberg, de Ellesmere e Gronelândia, havendo recuperações de aves anilhadas na Islândia e Finlândia.


CURIOSIDADES
A ave mais velha de que há registo foi recapturada com quase 20 anos.
As Rolas-do-mar conseguem movimentar pedras com o dobro do peso do seu corpo.

LOCAIS FAVORÁVEIS DE OBSERVAÇÃO
Em Portugal, pode ser observada ao longo da costa durante todo o ano, embora seja mais abundante durante os meses de Agosto a Maio. É mais facilmente observada em locais com plataformas rochosas.
Ao contrário do que sucede com a maior parte das outras espécies de limícolas, a Rola-do-mar não se concentra em grandes bandos nos estuários e os seus efectivos apresentam-se bastante dispersos. No entanto, pode ser facilmente observada nos estuários do Tejo e Sado.
BIBLIOGRAFIA

Chandler, R. J. (1989). The Macmillan Field Guide to North Atlantic Shorebirds. The Macmillan Press Ltd, London e Basingstoke.

Elias, G. L., Reino, L. M., Silva, T., Tomé, R. e P. Geraldes (Coods.) (1999). Atlas das Aves Invernantes do Baixo Alentejo. Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Lisboa.

Projecto, J. e M. Lecoq (1998). Aves da Costa Alentejana. Direcção Regional do Ambiente-Alentejo.

Sauer, F. (1983). Aves Aquáticas. Editorial Publica.

Snow, D.M: e C.M. Perrins (Eds.) (1998). The Birds of the Western Palearctic. Concise Edition; vol. 1 Non passerines. Oxford University Press.
Documentos Recomendados

Gaivota de Audouin (Larus audouinii)





A Gaivota de Audouin reproduz-se colonialmente em ilhas e zonas costeiras da bacia do Mediterrâneo. Na Europa concentra-se mais de 75% da população mundial desta espécie. As principais colónias situam-se em Espanha, França, Itália, Grécia e Turquia.

Recentemente recolonizou Portugal encontrando-se confinada ao Sul do país.

Em 1966 a sua população mundial foi estimada em 800-1000 casais. Era considerada, até há pouco tempo, uma espécie rara e esteve, até 1994, incluída na Lista das Espécies Globalmente Ameaçadas (UICN/BirdLife International). Nos últimos 20 anos a população desta gaivota aumentou exponencialmente, estando actualmente estimada entre 18 000 a 19 000 casais. Para o crescimento da sua população contribuiu sobretudo o estabelecimento, em 1981, de uma colónia no Delta do Ebro (Espanha) cujo número de indivíduos aumentou dramaticamente até ao ano 2000, estimando-se a população espanhola em cerca de 17 000 casais.

No entanto, apesar do significativo aumento do número de indivíduos, mais de 90% da população reprodutora europeia ocorre em apenas 10 locais, sendo por isso fundamental a protecção das suas colónias. As principais ameaças estão relacionadas com a alteração do habitat nos seus locais de reprodução, alterações nas práticas de pesca e a interacção com a Gaivota-de-patas-amarelas Larus cachinnans que inclui a predação de ovos e juvenis de Gaivota de Audouin e a competição por locais de reprodução.

A Gaivota de Audouin está classificada como SPEC1 pela BirdLife International e Quase Ameaçada no Livro Vermelho da UICN. Em Portugal, existe ainda pouca informação disponível acerca da sua biologia e ecologia. Recentemente foi classificada como Vulnerável (Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal).

in  http://www.spea.pt/index.php?op=audouin


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Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010

Garça-real (Ardea cinerea)

Presente por toda a Europa, a Garça-real, a maior das garças europeias, nidifica em colónias, algumas com centenas de anos. Possuindo uma larga área de distribuição, as suas populações apresentam uma tendência geral de crescimento.


IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS
A Garça-real (Ardea cinerea), pertencente à família Ardeidae, é a maior das garças da Europa, com 90 cm de comprimento, entre 175 e 195 cm de envergadura e cerca de 2 kg de peso. É uma espécie conspícua, facilmente observável e reconhecível no campo, mesmo pelos observadores menos experientes. As garças apresentam um voo impetuoso, com o pescoço retraído formando um “s” e emitem frequentemente um grasnar rouco característico. A plumagem das aves adultas é idêntica para os dois sexos, dominando os tons de cinzento, preto e branco. A cabeça e pescoço são maioritariamente brancos, com excepção de uma nítida coroa preta prolongada, na plumagem nupcial, por duas ou três penas também negras. O dorso é cinzento, bem como parte das asas em que somente as penas de voo (primárias e secundárias) são pretas. O bico é amarelo e as patas cor de carne. Os juvenis apresentam uma maior uniformidade no cinzento da plumagem.

DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA
Distribui-se praticamente por todo o Paleárctico, desde o Norte de África e Eurásia até à Manchúria. Nidifica ainda em alguns países do sudoeste africano e também na Índia, Sri Lanka, China, Tailândia, Coreia e Japão. Na Europa, tanto a área de distribuição como o efectivo populacional têm registado incrementos, embora se verifiquem algumas flutuações associadas, em parte, a condições climatéricas que têm contribuído para a expansão da espécie em direcção a norte e para a sua regressão na Europa Central. Em Portugal a população nidificante, estimada entre 200 e 300 casais em 1991, está maioritariamente concentrada no Alto Alentejo. A abundância da espécie aumenta, no entanto, nos meses de Inverno, sendo parte da população oriunda da Dinamarca, Países Baixos, Alemanha, França e Espanha.

ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO
De um modo geral, nos últimos anos, a população europeia de Garça-real tem vindo a aumentar. Esta espécie não se encontra ameaçada na Europa, nem em Portugal. Está incluída na Convenção de Berna (Anexo III).
FACTORES DE AMEAÇA
As principais causas de mortalidade nesta espécie estão associadas às actividades humanas, nomeadamente à agricultura e à piscicultura. No que respeita à primeira, a contaminação das aves por pesticidas parece constituir o principal factor de ameaça. Em relação à segunda, em Inglaterra, o abate de garças que se alimentavam nas pisciculturas quase levou à extinção da espécie nos anos 70. As Garças-reais são ainda particularmente sensíveis a Invernos rigorosos, podendo sofrer baixas importantes nas suas populações, das quais só recuperam num período de 2 a 3 anos.

HABITAT
Ocorre principalmente nas latitudes médias até às latitudes limite, onde os Invernos são demasiado rigorosos e o solo fica sob neve ou gelo, sendo menos abundante e mais dispersa nas zonas mediterrânicas, subtropicais e tropicais. Ocupa habitats de baixa altitude, geralmente associados a corpos de água e a zonas florestadas, sendo a garça mais arbórea, com excepção do Goraz (Nycticorax nycticorax). Prefere corpos de água pouco profundos, de água corrente e ricos em alimento e a sua grande capacidade de adaptação permite-lhe habitar estuários, deltas, rios, pauis, lagoas, arrozais, diques, canais, entre outros.

ALIMENTAÇÃO
A Garça-real alimenta-se, em geral, em águas pouco profundas, não sendo raro, no entanto, observá-la nesta actividade em zonas de terra seca. Alimenta-se maioritariamente durante o dia, de manhã cedo e ao entardecer. Captura principalmente peixe, mas também anfíbios, pequenos mamíferos, insectos e répteis; ocasionalmente consome, ainda, crustáceos, moluscos, aves e matéria vegetal.


REPRODUÇÃO
A Garça-real raramente se reproduz isoladamente, nidificando de um modo geral em colónias, cujo tamanho parece ser proporcional à riqueza das áreas de alimentação num raio aproximado de 25 km. Na Europa, as colónias de maior dimensão estão situadas em áreas costeiras, presumivelmente devido à sua proximidade a extensos pauis, lagoas, estuários e costa litoral, habitats que incluem uma grande variedade de áreas de alimentação. Os ninhos, construídos em árvores altas acima dos 25 metros, mas também em arbustos ou sobre caniços, e mais raramente em edifícios, pontes e no solo, são frequentemente ocupados em anos consecutivos. As posturas, com 3 a 5 ovos, são iniciadas no mês de Março, prolongando-se a incubação por cerca de 25 dias. As crias atingem a idade de emancipação por volta dos 50 dias de idade, mas ao fim de 25 dias são suficientemente crescidos para se defenderem e aventuram-se fora do ninho, subindo pelos ramos que os suportam.

MOVIMENTOS
Na Europa, as populações do Norte são migradoras, enquanto que as do Centro e do Mediterrâneo são residentes ou migradoras parciais, podendo deslocar-se para Sul, para África, em Invernos mais rigorosos. Antes da verdadeira migração, nos meses de Verão, as Garças-reais, especialmente os juvenis, dispersam em todas as direcções. A migração de Outono inicia-se em Setembro e prolonga-se até final de Outubro. Em Fevereiro tem lugar a migração nupcial, sendo as colónias geralmente reocupadas em Março.

CURIOSIDADES
As maiores colónias de Garça-real localizam-se em França. Nos anos 80 a maior colónia francesa albergava cerca de 1100 casais.

LOCAIS FAVORÁVEIS À OBSERVAÇÃO
Em Portugal, os locais onde a espécie é mais abundante correspondem a estuários e lagoas costeiras, nomeadamente os Estuários do Tejo e Sado e a Lagoa de Santo André, onde abundam as potenciais áreas de alimentação. No interior do país a distribuição da espécie acompanha as bacias hidrográficas dos rios Sado e Guadiana, estando os indivíduos associados a cursos de água. No Alentejo ocorre ainda em açudes e barragens.
BIBLIOGRAFIA

Elias, G. L., Reino, L. M., Silva, T., Tomé, R. e P. Geraldes (Coods.) 1998. Atlas das Aves Invernantes do Baixo Alentejo. Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Lisboa.

Sauer, F. 1983. Aves Aquáticas. Editorial Publica.

Snow, D.M. e C.M. Perrins (Eds.) (1998). The birds of the Western Palearctic. Concise Edition; vol. 1 Non passerines. Oxford University Press.

Voisin, C. 1991. The Herons of Europe. T & AD POYSER. London





in  http://naturlink.sapo.pt/article.aspx?menuid=55&cid=3030&bl=1&viewall=true#Go_1

Sábado, 25 de Setembro de 2010

COLHEREIRO (Platalea leucorodia)









Ave rara e inconfundível devido à forma do bico que lhe dá o nome, o Colhereiro está presente como nidificante na Europa, onde concentra três quartos da população mundial e enfrenta a crescente deterioração e perda do seu habitat.

CARACTERÍSTICAS E IDENTIFICAÇÃO
O Colhereiro (Platalea leucorodia) pertence à família Threskiornithidae e é o único representante desta família (que inclui várias espécies de ibis) com presença regular em Portugal. Com cerca de 80 a 90 cm de comprimento, 115 a 130 cm de envergadura, pescoço e patas compridas e uma plumagem maioritariamente branca, o Colhereiro assemelha-se a uma garça-branca de grande dimensão. Apresenta, no entanto, pescoço e patas mais longas, plumagem de um tom branco-creme e um bico inconfundível, comprido e terminando em forma de colher. Na plumagem nupcial os adultos apresentam uma poupa de penas amarelo-pálido, uma mancha alaranjada na base do bico e uma banda alaranjada à volta do peito. O bico é preto com a extremidade alaranjada na estação reprodutora; as patas são pretas. Nos juvenis as pontas das asas são pretas; o bico é cor-de-rosa, tornando-se preto no primeiro Inverno. Trata-se de uma espécie que não oferece qualquer dificuldade de identificação quando bem observada, nomeadamente quando é possível observar o seu bico inconfundível.

DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA
Distribui-se de forma dispersa na Europa, principalmente nas regiões orientais, estando presente no Ocidente, mas ausente no Norte. Quase três quartos da população mundial nidificam na Europa (entre 5.000 e 9.000 casais), localizando-se os principais núcleos reprodutores na Rússia, Turquia, Hungria, Ucrânia, Países Baixos e Espanha. Para além do Paleárctico Ocidental, nidifica da Ásia Central, até ao Norte da China e desde a Índia até à costa africana do Mar Vermelho, e inverna no Norte de África. Em Portugal está presente no litoral sul do país como invernante, concentrando-se a maioria destas aves nos Estuários do Tejo e Sado, na Lagoa de Santo André e, principalmente, na Ria Formosa e Castro Marim. Como nidificante é raro, tendo mesmo chegado a desaparecer. No entanto, na última década estabeleceu-se novamente como nidificante no Paúl do Boquilobo, em Pêro Pião e na Ria Formosa.

ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO
Esta espécie encontra-se em acentuado declínio no que respeita a mais de dois terços da sua população, embora se registe um actual aumento na Europa Ocidental. Em Portugal tem estatuto de vulnerável. A nível europeu encontra-se protegido pelas convenções de Cites (Anexo II), Bona (Anexo II) e Berna (Anexo II) e ainda pela Directiva Aves (Anexo I).

FACTORES DE AMEAÇA
As principais causas de declínio desta espécie são a perda de locais de nidificação e de alimentação, devido às drenagens, deterioração e perturbação das zonas húmidas. Outros factores de ameaça são a exploração de ovos e crias e a poluição dos corpos de água utilizados como áreas de alimentação.
HABITAT
Ocorre principalmente em zonas de clima quente, penetrando localmente em regiões temperadas. Ocupa zonas húmidas de baixa altitude e, de um modo geral, junto à costa, nomeadamente deltas de rios, estuários, lagoas e pauis. Os colhereiros necessitam, para se alimentar, de águas pouco profundas e de fundo lamacento. As colónias estabelecem-se em extensos caniçais, geralmente com arbustos e árvores, ou em ilhas, em locais seguros em relação à perturbação e a predadores terrestres.

ALIMENTAÇÃO
Os colhereiros procuram o alimento em águas pouco profundas, em geral até aos 30 cm de profundidade. Caminhando, muitas vezes em grupo, fazem passar o bico com movimentos ceifantes, na cadência dos seus passos, através das camadas fluidas de lama. Deste modo capturam animais que vivem na lama ou que ali se escondem, principalmente insectos e as suas larvas, incluindo Coleoptera, Odonata, Trichoptera, Orthoptera, Diptera e Hemiptera. Alimentam-se ainda de pequenos peixes, moluscos, crustáceos, rãs, répteis e algum material vegetal.

REPRODUÇÃO
Trata-se de uma espécie colonial, que pode formar colónias mistas com outras aves palustres, nomeadamente garças e corvos-marinhos. Os ninhos são construídos em caniços velhos ou, pontualmente, em árvores, encontrando-se a uma altura superior a 5 metros. De um modo geral, no centro de uma colónia a densidade de ninhos é muito elevada, podendo os vários ninhos, ao longo do tempo, formar uma única plataforma. A época de postura ocorre em Abril, sendo colocados entre 3 a 4 ovos manchados (por vezes 5 ou 6, raramente 7), que são incubados durante cerca de 25 dias. Os juvenis atingem a emancipação com 50 dias de idade.

MOVIMENTOS
Esta é uma espécie migradora e dispersiva. Os juvenis fazem pequenas deslocações em Julho e Agosto, mas as aves adultas só abandonam as colónias em Setembro, voltando no ano seguinte, em geral, no mês de Março. A migração é principalmente diurna, sendo comum observar bandos de colhereiros em formação. As populações nidificantes na Europa passam o Inverno na bacia do Mediterrâneo e no Nordeste de África, com excepção de algumas populações do Leste, que podem invernar no Médio Oriente e na Índia.

CURIOSIDADES
A recolha de dados, através da leitura de anilhas, relativos à proveniência das aves reprodutoras em Portugal demonstrou que aquelas que nidificam na Ria Formosa e em Pêro Pião são maioritariamente de origem espanhola, enquanto que as do Boquilobo são, em geral, holandesas.

LOCAIS FAVORÁVEIS DE OBSERVAÇAO
Em Portugal pode não ser uma espécie de fácil observação, uma vez que está restricta a poucas zonas húmidas nacionais. O Paúl do Boquilobo, os Estuários do Tejo e Sado, a Lagoa de Santo André, a Ria Formosa e as salinas de Castro Marim são os principais locais de invernada da espécie, que só está presente como reprodutora no Paúl do Boquilobo, em Pêro Pião e na Ria Formosa.
BIBLIOGRAFIA

Elias, G. L., Reino, L. M., Silva, T., Tomé, R. e P. Geraldes (Coods.) 1998. Atlas das Aves Invernantes do Baixo Alentejo. Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Lisboa.

Farinha, J.C. e V. Encarnação 1996. Estado actual das colónias de Colhereiro Platalea leucorodia em Portugal. In Farinha, J.C., J. Almeida e H. Costa (Eds.) Actas do I Congresso de Ornitologia da Spea, pags.:70-71. SPEA. Lisboa.

Sauer, F. 1983. Aves Aquáticas. Editorial Publica.

Snow, D.M: and C.M. Perrins (Eds.) (1998). The birds of the Western Palearctic. Concise Edition; vol. 1 Non passerines. Oxford University Press.

Tucker, G.M. and M.F. Heath (1994). Birds in Europe: Their Conservation Status. Birdlife Conservation Series nº 3.

Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

Maçarico Galego (Numenius phaeopus)

Corvo Marinho de Faces Brancas ( Phalacrocorax carbo )

O Corvo-marinho-de-faces-brancas foi duramente perseguido por ser considerado um concorrente dos pescadores. Actualmente, o incremento da sua população deve-se à implementação de medidas de conservação e à expansão das pisciculturas.

IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS
O Corvo-marinho-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbo) é uma ave de grande porte, esguia e de plumagem escura. Embora semelhante ao Corvo-marinho-de-crista (Phalacrocorax aristotelis) é maior e mais pesado, com o bico e pescoço mais grossos. Os adultos, em plumagem nupcial, têm o bico alaranjado e manchas brancas conspícuas nas coxas e na zona da garganta e face. As coberturas superiores são de cor castanho-bronze orladas a preto. Nas aves da subespécie sinensis o branco estende-se por todo o pescoço. Os juvenis são castanho-escuro com o ventre esbranquiçado.

DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA
Ocorre nos cinco continentes onde está representado por várias subespécies. No Paleártico tem uma vasta área de distribuição. As áreas de reprodução estendem-se desde as regiões árticas até zonas subtropicais, embora as maiores concentrações se localizem em latitudes médias. A subespécie P. c. carbo está presente no Norte da Europa onde os seus efectivos nidificantes tem conhecido um incremento notável, expandindo a sua população para sul até Espanha e Itália. A subespécie P. c. Sinensis está representada na Europa Central e do Sul.
Em Portugal, onde ocorrem estas duas subespécies, os indivíduos são invernantes e migradores de passagem. A população tem vindo a crescer desde 1990 encontrando-se actualmente em estabilização. A população invernante no nosso país está estimada em cerca de 11000 indivíduos.

ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO
O aumento da população desta espécie a nível europeu prende-se com o sucesso da implementação de medidas de conservação da espécie e dos seus habitats e com o incremento da área ocupada por pisciculturas, onde a espécie se alimenta.

Galeirão - Fulica atra




Esteiro da Barquinha
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Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

FLAMINGO Phoenicopterus ruber

O Flamingo-comum é uma das mais graciosas e estranhas aves da fauna mundial, resultado inesperado da adaptação aos meios aquáticos que frequenta. Não havendo registos de nidificação em Portugal, é comum nalgumas zonas húmidas do nosso País.





IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS

O flamingo-comum (Phoenicopterus ruber) é uma ave pernalta que pertence à família Phoenicopteridae e à Ordem dos ciconiformes. É a ave mais alta da nossa fauna, podendo ultrapassar o metro e meio. Em média os machos são um pouco maiores e têm o pescoço mais comprido do que as fêmeas. A envergadura dos flamingos varia entre os 140 e os 165cm. A sua plumagem apresenta uma variação considerável entre o rosa pálido e um rosa mais intenso. As penas de cobertura das asas são cor de rosa vivo e as penas de voo são pretas. As patas, tal como o bico, com excepção da ponta que é preta, são igualmente cor de rosa. Os juvenis têm o pescoço e as patas mais curtos e a plumagem que inicialmente é castanho-acinzentado vai, à medida que o indivíduo se aproxima da maturidade, sendo substituída por uma plumagem branca e finalmente rosada.





DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA

A distribuição do flamingo-comun estende-se desde as Galápagos até à Índia, passando pelas Caraíbas, pela bacia do Mediterrâneo, pelas costas de África e pelo próximo e médio Oriente. Na Europa, a espécie distribui-se quase exclusivamente pelos países da orla mediterrânea. O seu comportamento reprodutor apresenta uma plasticidade bastante grande como resposta à abundância de recursos, podendo em alguns anos não se chegar a reproduzir nos locais historicamente mais favoráveis. As principais colónias europeias, que podem reunir 20 000 indivíduos, situam-se no Sul de França, na Camargue. Em Espanha, os flamingos também se têm reproduzido, de forma mais ou menos regular, desde o delta do Ebro até ao Guadiana. Em 1990, só na lagoa de Fuentedepiedra, na Andaluzia, 13 316 casais produziram 10 417 crias.


Em Portugal, os flamingos ocorrem principalmente na faixa costeira da metade Sul do país, com destaque para os estuários do Tejo e do Sado, a ria de Faro e o sapal de Castro Marim. Em menor número, ocorrem em algumas lagoas costeiras, como a de Óbidos ou Santo André e também em albufeiras do interior do Alentejo. Apesar de estarem presentes em Portugal durante todo o ano, nunca foi possível confirmar a nidificação da espécie no nosso país. A população nacional conta com um elevado número de indivíduos imaturos não reprodutores. O efectivo populacional europeu reflecte a dinâmica que se estabelece com as populações do Norte da África, daí que os valores possam oscilar grandemente. Crê-se que a população nidificante europeia se situe entre os 15 e os 35 mil indivíduos, mas o total dos flamingos do Mediterrâneo Ocidental pode atingir os 80 000. Em Portugal, as variações inter-anuais são também bastante acentuadas, atingindo-se picos da ordem dos 3 milhares de indivíduos.



ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO

Apesar de se tratar de uma espécie bastante sensível à poluição das águas e à perturbação, particularmente durante o período de nidificação, a população de flamingos está a aumentar em alguns países da Europa. Esse facto fica provavelmente a dever-se à circunstância das principais colónias se situarem em áreas protegidas. Em todo o caso, os habitats utilizados pela espécie são altamente perecíveis, e por isso ela está classificada na Europa como uma SPEC 3, espécie cuja população global não está concentrada na Europa, mas que tem um estatuto de conservação desfavorável nesse continente. Para este estatuto, contribui ainda o facto da população europeia estar altamente concentrada num número reduzido de locais, sendo por isso muito mais vulnerável.

HABITAT
Os flamingos frequentam estuários, salinas, tanques de pisciculturas e lagoas costeiras ou interiores de água doce, salgada e até alcalina. De uma forma geral, alimentam-se em águas pouco profundas, mas podem também fazê-lo nos sedimentos, ou em água com mais de um metro de profundidade.



ALIMENTAÇÃO
A alimentação dos flamingos atingiu o expoente máximo da perfeição adaptativa de um método também utilizado por outras espécies de aves: a filtragem da água. As mandíbulas dos flamingos estão dotadas de umas pequenas estruturas rígidas, lamellae, e a sua língua é espessa e carnuda, com protuberâncias. Para se alimentarem, os flamingos imergem parte do bico, ou mesmo a totalidade da cabeça. Com o bico semicerrado, a língua descreve movimentos extremamente rápidos para a frente e para trás, a uma velocidade de cerca de 17 movimentos por segundo, actuando como um êmbolo que bombeia água através das lamellae, que retêm as partículas em suspensão na água. Posteriormente, as protuberâncias da língua raspam o alimento e este é ingerido. Neste processo, os flamingos ingerem insectos, crustáceos, moluscos, anelídeos, protozoários, diatomáceas, algas, sementes, plantas e até pequenos peixes.


REPRODUÇÃO
Os flamingos são uma espécie monogâmica que acasala com o mesmo indivíduo para toda vida. O inicio da época de nidificação depende muito das condições climatéricas e da satisfação de determinados requisitos, o que em geral sucede em finais de Abril. Os ninhos, em regra feitos de lama, são construídos em colónias que podem reunir muitos milhares de indivíduos, estando em média a 35 cm uns dos outros. Ambos os sexos constroem o ninho. As posturas são quase sempre de 1 ovo e apenas excepcionalmente de 2 ovos. A incubação é feita pelos dois progenitores e a eclosão dá-se entre 28 a 31 dias depois da postura. Após a eclosão, as crias abandonam o ninho, mas mantém-se nas imediações durante 10 dias, altura a partir da qual são reunidas em "creches" de muitos juvenis da mesma idade. Durante este período, ambos os progenitores conseguem distingir a sua cria e apenas alimentam o seu descendente. Apesar de aprenderem a voar perto do septuagésimo quinto dia de vida, é natural que ainda fiquem na "creche" até por volta do cem dias de vida. Findo este período, as crias tornam-se rapidamente independentes, mas só se reproduzirão 2, 3 ou mesmo 4 anos mais tarde.

MOVIMENTOS
A população europeia de flamingos não apresenta nenhum padrão de migração claro. Enquanto que alguns indivíduos de uma mesma colónia se mantêm no local onde nasceram, outros descrevem viagens de vários milhares de quilómetros. Um indivíduo anilhado na Andaluzia foi controlado em Chipre, e outros anilhados na Camargue foram avistados na Mauritânia e no Senegal.
Em Portugal são frequentemente observados flamingos com anilhas espanholas.



CURIOSIDADES
Para um grande número de portugueses os flamingos são aves exóticas que pertencem apenas à fauna de países longínquos. No entanto, não só são razoavelmente abundantes no nosso país, como às vezes é possível observa-los mesmo a partir de perímetros urbanos, como do de Lisboa.



ONDE OBSERVAR
As maiores concentrações de flamingos no nosso país ocorrem no Estuário do Tejo, onde é possível observá-los em vários locais, desde Sacavém até ao Montijo. Dentro desta área vastíssima, a Reserva Natural do Estuário do Tejo, e as salinas do Samouco são os melhores locais para se encontrarem flamingos. Neste último local são frequentemente visíveis a partir de ponte Vasco da Gama.Também na margem Norte do Sado, na zona da Gâmbia, Mourisca e Mitrena se podem fazer boas observações.No Algarve, o sapal de Castro Marim é talvez o melhor local para se encontrarem estas aves e a melhor estratégia talvez seja perscrutar o sapal e as salinas, com o auxilio de binóculos, e a partir de um ponto alto, em busca de aves cor de rosa ou brancas com um metro e meio de altura.


Ficha do flamingo IN http://www.naturlink.pt/